sexta-feira, 16 de novembro de 2012

"Isabel Padrão: Um Percurso em Veneza, O Doge" Jorge Velhote



Isabel Padrão: Um Percurso em Veneza, O Doge


É lacunar e floresce e na noite obscura, da sombra mais impura, regressa como paisagem antiga, repentinamente ofegante e fragmentária como se apagasse o tempo ou cavalo de recordações imaginadas.

Uma dor assim em ritmo compassado como se de um abrigo movesse a aragem, amarrotam-se lenços, descobrem-se esquecidos brinquedos, brisas que despenteiam cabelos e quando a noite vem tudo é mais nítido como os pés mergulhados nas ondas frias.

Há uma ausência consentida. Um vislumbre de sol e poeira que rasga nas janelas alvéolos trepidantes ou chaves para um universo de silêncios e repetições. Na sua nitidez a mulher está viva, introduz nos caminhos o roçagar antigo da erva alta. A claridade surpreendente que entre ramos os desenha e oculta se os olhamos muito de frente ou apenas num vislumbre tecemos a sua melodia.

Ela escuta esse momento. Dorme sobre o seu lado esquerdo. Esboça com as sombras instrumentos para a melancolia, simples linhas escuras que são objectos imperdíveis onde circula o sangue ou o oxigénio. Histórias longas como tristezas ou bichos que se alimentam de sentimentos e visões. A barbaridade é um lugar de lentidão e desejo acelerado. Um piano regado a músculos e contenção, água jubilosa e raízes comprimidas debaixo da língua.

Como se estivéssemos ausentes regressamos todos por essa rota de luz. Incandescentes e perdidos, rendidos às sombras mais negras, à razão primitiva da salvação, como tambores ou eco de labaredas incorruptas. Mínimos diante das máscaras difusas, matéria e energia fulgindo em desassossego, brusquidão acutilante e bela, sopro apenas delicado. Ela busca na sua mão a montanha mais funda do mar. Ressuscita o seu coração e a beleza dos pulmões. A textualidade rigorosa da morte e a cavidade onde se aloja o amor como um cinzel de lume. Rasga com os dentes a alvura da pele, a caligrafia do silêncio mais puro, as cartas longínquas que demandaram lugares ignorados, cânticos oblíquos que entornam as manhãs, alamedas incrustadas de panos onde o orvalho infesta, corpos nus como árvores descobertas, pedras onde a noite deixa o seu regaço, incumbências amargas como cerimónias perdidas, vozes
que clamam ressuscitação, selos que balouçam como tempestades, um deles é a chave do novelo onde morrem peixes e sonhos e a santidade é uma caverna de ossos cercada de carne por todos os lados, uma gruta de palavras como chuva sereníssima, um segredo adormecido desfolhando milagres, clorofila, o bulício efémero dos jardins, o aroma das palavras que respira, a criança que se dobra para agarrar a nuvem azul que voa no seu olhar, o martelo de Rilke e o seu anjo invisível, fragmentos que o seu olhar alcança e penetra como no horizonte a copa das árvores.

Ela arde simplesmente. Como se o desespero fosse da sua idade ou apenas nómada entre indiscretos lugares. Como se a morte um parêntesis despojado de segredos sem sentido. Uma lágrima ou nervura desgastada em folha seca. Arde como as aves na alegria do seu canto raríssimo. Ergue entre sombra e penumbra uma luz que se oculta entre as linhas da mão como presságios ou andorinhas. Ergue uma ponte de palavras e sevícias que escorrem na garganta e seduzem o fogo das rosas.

Ela tange um comércio de vidros feridos por mordeduras de bichos e ironias surpreendentes. Não há, nesse lugar, percutido senão a queda de um olhar comunicável. Uma voz feminina como um lençol resguardando a intimidade. O lugar onde arde a fúria que se revela no silêncio e na falésia que repousa diluente nos seus dedos.

Ela escreve agora uma carta iluminada de poeira e odores. E com os olhos fechados prepara-se para abrir uma gaveta, está nas trevas, o bálsamo da melancolia debaixo dos dedos busca o papel e os fluídos transeuntes entre todos os corpos e a luz destinam o texto a escurecer de negrume: eu vi, na noite a crina do cavalo, nas ruas o repentino movimento incolor das árvores, o lixo arborescer, as feridas inextinguíveis, a inquietude dos objectos insonoros, os recados da ausência rufando, o demasiado espaço do silêncio, as palavras como baleias, os rostos como rendas invisíveis, o horto da tristeza na trepidação dos espelhos, o órfão sussurrando confidências como um fotógrafo, eu vi o medo, a melodia que penetra e abre uma gota de sangue.

E nesse instante eu estava lá.

Jorge Velhote

2012

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